TELETRABALHO-LUDITAS-E-A-MUDANCA-INEVITAVEL(1) Manual do Giuliano

NOME

Teletrabalho, luditas e a mudança inevitável?

· Reflexões · 7 min

DESCRIÇÃO

Estamos passando por uma época de grandes transformações, e nos últimos 200 anos em qualquer dia de qualquer semana em um folhetim qualquer, um autor poderia começar seu texto desta exata mesma forma, pois, com o advento do capitalismo a mudança é a regra.

Os jovens capitalistas em suas startups que dizem que são disruptores e que irão mudar ou até salvar o mundo não se diferem dos velhos de 100 ou 200 anos atrás, pois, em cada época a sua maneira houveram grandes disrupções, pois, esta no cerne deste sistema a transformação, a sua reinvenção e adaptação, características as quais o definem.

Com o advento da pandemia e consequentemente do teletrabalho, este tornou-se lugar comum, com as reuniões presenciais sendo substituídas por suas versões virtuais graças as ferramentas como o Google Meet, Microsoft Teams e o Zoom.

Porém, como em toda época existem os luditas que apenas enxergam o lado negativo disso e que querem o retorno ao velho formato, pois, afinal a pandemia acabou, argumentando a ladainha conservadora de sempre, como se na história houvesse um botão de reset.

Para os que ainda estão na contramão da história, cabe lembrar que do mesmo jeito que os antigos viam os jovens usando computadores por horas como algo anormal que deveria ser combatido, os que só enxergam o mal no teletrabalho, em 5 ou 10 anos (estou sendo pessimista) estarão nele, da mesma forma que os primeiros hoje não largam um smartphone, passando muito mais tempo no mundo virtual (sobretudo Whatsapp e Facebook) que seus filhos que tanto criticaram.

Nos últimos tempos, presenciei um dos fatos mais irônicos e engraçados, pois, presenciei em uma reunião que ocorria num ambiente virtual, em que o teletrabalho era uma das pautas, devido sua eminente regulamentação, que todos devíamos nos lembrar dos malefícios incomensuráveis deste e como devíamos ter extremo cuidado.

Fiquei atônito e frustrado ante a falta de visão, pois, em momento algum havia se estabelecido esta modalidade de trabalho como algo taxativo, isto é, obrigatório ou que estaríamos minimamente próximos ao cenário da pandemia, em que todos foram forçados este modo, independente das suas capacidades tanto psicológicas, sociais quanto de suas habilidades com um meio completamente diferente em que sua interação é mediada pela tecnologia, a qual pode ser que sequer dominasse.

Por isso, não discordo, das críticas traçadas ante ao fato de que realmente a sociabilidade fica limitada na modalidade 100% remota, dentre tantos outros pontos que podem ser elencados, afinal, é uma nova modalidade de trabalho que requer metodologias próprias as quais muitos não estão preparados.

Entretanto, o cerne da questão é que o teletrabalho veio para ficar, mas, não é para todos e nem deveria ser.

Assim como o rádio não substituiu o jornal, nem este foi substituído pela televisão, nem tão pouco a Internet tenha acabado com os meios de comunicação de massa, apenas os transformaram, espera-se que as novas modalidades de trabalho irão continuar coexistindo com as antigas, afinal a revolução industrial não acabou sequer com artesanato, apenas criou uma nova forma de trabalho (alienado) e configuração social (criando duas classes antagônicas, uma servindo a outra).

Porém, além disso, é imprescindível destacar que não dá pra devolver o gênio para dentro da garrafa, depois que algo é inventado não dá pra simplesmente desinventar. As ideias não podem ser destruídas e é necessário mais do que uma catástrofe civilizatória para que percamos nossa tecnologia, quanto mais os ideais e as possibilidades advindas dela.

As pessoas não vão se esquecer que não precisavam enfrentar um trânsito infernal para chegar ao trabalho, e que este era feito de casa, sem maiores dessabores para os que se adaptaram.

Nos poucos anos de vida e de experiência no mercado de trabalho, já ouvi de tudo quanto a próxima revolução tecnológica ou social, desde de que o CD jamais seria substuído pelo MP3 e tão pouco este pelo streaming de música, afinal, as pessoas iriam querer ter fisicamente seus discos, CD’s e afins.

Vivi para ver dois espaços que frequentava com prazer, deixarem de existir, sendo o primeiro as bancas de jornais e o segundo as livrarias, que fecharam ou o estão em processo de extinção, com algumas iniciativas para tentar se relançarem. O capitalismo é um sistema cruel que não liga pra nostalgia nem tão pouco para sua opinião pessoal, eu sinto falta de comprar quadrinhos nas bancas, mas, eu tenho a maturidade e a compreensão que essa é uma época que passou.

Mais recentemente ao apresentar um novo sistema eletrônico de informações, que pretendia acabar com os processos em papel, presenciei um Gestor Experiente afirmar que escutava há vários anos sobre o “fim” deste nas organizações. A impressão que ficou foi que para ele o papel seria eternamente insubstituível, pois, já haviam tentado de tudo para libertar as organizações desta tirania. No final, ele estava errado, e o sistema está lá e todos dependem dele, e apesar de ainda estarmos em um longo e doloroso processo de Transformação Digital de todos os demais processos, muitas organizações são há muito tempo totalmente paperless.

Porém, é claro que todas as impressoras ainda estão lá, quem quiser pode ler a versão impressa, porém, os processos ocorrem de forma eletrônica, sendo o papel apenas mais um meio para o consumo da informação e não o alicerce do sistema.

Quem diria 10 anos atrás que uma tecnologia como o PIX seria tão onipresente, que nem imaginamos mais como vivemos tanto tempo sem isso? Até mesmo uma tecnologia revolucionária quando se prova superior, esta torna-se o status quo. Quase todo brasileiro concorda que o fim do PIX ou sua disrupção por algumas horas, poderia até trazer o caos social.

Os luditas também apresentaram o mesmo nível de argumentos que tem sobre o teletrabalho quando do surgimento do EAD, o qual de imediato foi dado como um fracasso eminente, uma moda passageira e uma opção para os preguiçosos, considerado algo inferior. Convenhamos que de fato, existe um “gap” entre o Presencial, o Semi-Presencial e ao EAD, mas, também não podemos esquecer que o último democratizou ainda mais a educação. Hoje temos inúmeras plataformas que difundem o conhecimento sobre tudo, até o Youtube e o Tiktok podem ser considerados versões disso. Hoje, você consegue um certificado de proficiência em língua estrangeira no DuoLingo, sem nunca ter ido a uma aula física.

Isto é, não deve-se se esperar que um novo paradigma substitua por completo seus antecessores, as pessoas são diferentes, cada um aprende e interage com o mundo de uma forma própria, tem suas limitações e habilidades que o tornam o individuo único, mas, por isso, temos que ter várias opções que se complementem e que sejam uma nova via que irá produzir novos talentos, os quais não poderiam existir por não se encaixarem nos modelos anteriores.

Porém, o fato inescapável, a realidade posta, é que o Trem do Progresso já saiu da Estação e ele é completamente apático aos luditas, pois, conforme demonstrado até aqui com vários exemplos, a tecnologia e modos superiores de se fazer algo irão sempre se estabelecer independentes das convicções pessoais daqueles que estão amedrontados pela mudança.

Convenhamos, apesar do teletrabalho não se aplicar a todas as áreas, vivemos em mundo globalizado, uma aldeia global, em que os países que não adaptarem suas normais legais e infralegais, tanto no meio público quanto privado, terão que assistir atônitos uma perda de cérebros mais brutal do que ocorreu nas últimas décadas, afinal, hoje alguém formado por exemplo em Tecnologia da Informação, pode trabalhar e contribuir com perfeição em um time em Dubai, Nova Iorque ou Londres, ou em qualquer outro lugar, pois, as limitações para isso são poucas, e com certeza as pessoas preferem receber em dólar do que em reais, e por isso, serão atraídas pelo dinheiro e abandonarão os seus chefes, e no caso do serviço público, isso é algo que já acontece, muitos estão abandonando até a estabilidade, porque no final das contas não valorizaram seu trabalho e se importaram mais com os eventuais riscos que uma mudança que já aconteceu irá trazer.

Eu enxergo os amantes do escritório, aqueles que sequer cogitam o trabalho híbrido (em que você trabalha remotamente por um período e presencialmente por outro), como peças de museu, pois, a menos que seu trabalho dependa de sua presença física, não entendo os motivos por detrás de tamanho arcaísmo.

Para saber mais:

https://www.cnbc.com/amp/2023/11/30/return-to-office-is-dead-stanford-economist-says-heres-why.html

https://siepr.stanford.edu/publications/work/great-resistance-getting-employees-back-office

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